Durante muito tempo, o clique foi tratado como o sinal definitivo de intenção. Mesmo quando as aberturas começaram a perder fiabilidade, o clique manteve-se como referência segura para medir interesse, ativar automações e validar hipóteses.
Esse pressuposto deixou de ser válido, sobretudo em ambientes B2B ou em bases de dados com domínios corporativos. Hoje, uma parte relevante dos cliques registados em campanhas de email não é gerada por pessoas, mas por sistemas automáticos de segurança. O problema não é apenas estatístico, é estrutural, porque estes cliques interferem diretamente com a lógica de decisão.
Contents
- O papel real dos sistemas de segurança no email moderno
- Como é que um clique falso é mais destrutivo do que uma abertura falsa
- O efeito cascata nas automações
- Como distinguir comportamento humano de comportamento automático
- O impacto nos testes e na aprendizagem do sistema
- Conclusão
- Principais aprendizagens
O papel real dos sistemas de segurança no email moderno
Os filtros de segurança corporativa não existem para observar comportamento, existem para prevenir risco. Para cumprir esse objetivo, adotam uma postura ativa. Quando um email entra numa organização, estes sistemas analisam o seu conteúdo e testam todos os pontos de saída possíveis.
Isto inclui clicar em links, seguir redirecionamentos, carregar páginas de destino e avaliar scripts. Este processo acontece de forma automática e, frequentemente, imediatamente após o email ser entregue, antes de qualquer colaborador o ver.
Do ponto de vista da segurança, este comportamento é racional. Do ponto de vista do marketing, cria um cenário em que o primeiro clique raramente é humano.

Como é que um clique falso é mais destrutivo do que uma abertura falsa
Uma abertura falsa cria ilusão. Um clique falso cria ação. Esta distinção é fundamental.
Quando um sistema de segurança clica num link, o evento é registado como interesse. A partir daí, o sistema de marketing reage. Segmentações são atualizadas, fluxos são ativados, estados mudam. Tudo isto acontece sem qualquer decisão humana.
Quando o utilizador real interage mais tarde, essa interação perde peso analítico. O evento já ocorreu, a lógica já foi executada e o sistema já “aprendeu” algo que nunca aconteceu na realidade.
É por isso que os cliques automáticos são particularmente perigosos. Eles não inflacionam apenas métricas, corrompem processos.
O efeito cascata nas automações
Grande parte das automações modernas parte de um princípio simples: reagir a ações do utilizador. Quando essa ação não é humana, toda a cadeia seguinte perde significado.
Fluxos de “obrigado pelo interesse” podem ser acionados sem interesse real. Sequências de nutrição avançam etapas sem que o contacto tenha consumido qualquer conteúdo. Em casos mais graves, sistemas de unsubscribe são acionados por bots, removendo contactos válidos da base de dados.
Estes problemas raramente são detetados de imediato, porque os relatórios continuam a mostrar atividade. O erro só se torna visível quando os resultados não acompanham as métricas.
Como distinguir comportamento humano de comportamento automático
Apesar de sofisticados, os sistemas de segurança deixam sinais claros da sua passagem. O mais óbvio é o tempo. Cliques que ocorrem um ou dois segundos após o envio não correspondem a comportamento humano. Nenhuma pessoa lê um email, decide e clica nesse intervalo (a não ser que seja o Flash).
Outro sinal frequente é a incoerência. Um mesmo contacto a clicar em vários links diferentes, incluindo links promocionais, redes sociais e unsubscribe, no mesmo instante, não está a expressar interesse, está a executar um teste automatizado.
Há ainda a sincronização perfeita. Quando abertura e clique partilham o mesmo timestamp, trata-se quase sempre de uma máquina a processar o email como um pacote técnico.
O impacto nos testes e na aprendizagem do sistema
Quando cliques automáticos são tratados como sinal válido, os testes A/B deixam de testar o que se pensa que estão a testar. Linhas de assunto, conteúdos ou CTAs podem parecer vencedores apenas porque foram mais rapidamente analisados por sistemas de segurança.
O sistema aprende padrões errados, reforça decisões erradas e otimiza campanhas para agradar a máquinas. Este é um dos motivos pelos quais vejo todas as semanas equipas experientes a sentirem, cada vez mais, uma desconexão entre métricas positivas e impacto real.
Conclusão
O clique deixou de ser um sinal automaticamente fiável. Continuar a tratá-lo como tal é construir decisões sobre uma base instável.
No próximo artigo, fechamos a série com uma abordagem prática para reorganizar métricas, redefinir KPIs e medir o que realmente importa num ambiente imperfeito.
Principais aprendizagens
- Cliques automáticos são comuns em contextos B2B e têm impacto direto em automações e decisões.
- O problema não é técnico, é analítico.
- Sem filtragem e interpretação, o sistema passa a otimizar para máquinas em vez de pessoas.