A verificação de identidade dos remetentes está a chegar ao SMS, RCS e WhatsApp. Novas regras em Portugal e na Europa procuram combater spoofing, smishing e fraude, tornando os canais mais seguros, confiáveis e transparentes para empresas e consumidores.
Atender uma chamada de um número desconhecido já não é um gesto automático para muita gente. Um SMS com um link também passou a ser recebido com desconfiança. E até uma chamada aparentemente feita por um familiar pode já não ser aquilo que parece.
Os golpes com voz clonada por inteligência artificial ajudaram a acelerar esta mudança de comportamento. A Guarda Nacional Republicana já alertou publicamente para este tipo de fraude, enquanto a Polícia Judiciária investiga em Portugal casos conhecidos como “Olá mãe” e “Olá pai”, nos quais uma voz clonada imita um familiar para pedir dinheiro com urgência.
A tecnologia necessária para o fazer está cada vez mais acessível. Em alguns casos, bastam poucos segundos de áudio retirados de um vídeo publicado nas redes sociais para reproduzir uma voz de forma convincente. Há mesmo estimativas segundo as quais uma em cada quatro pessoas recebeu uma chamada deste género no último ano.
Mas o verdadeiro problema não é apenas tecnológico. É um problema de confiança.
Contents
- Quando já não sabemos quem está do outro lado
- A identidade do remetente está a tornar-se obrigatória
- Uma tendência que poderá estender-se ao resto da Europa
- No RCS, a verificação já faz parte do processo
- O WhatsApp Business segue uma lógica semelhante
- O que muda para as empresas
- E o que muda no mercado de SMS e RCS?
- Como estamos a acompanhar esta mudança
- No fundo, trata-se de responder a uma pergunta simples
Quando já não sabemos quem está do outro lado
A OCDE colocou as burlas e fraudes financeiras entre os principais riscos para os consumidores em 2026, numa altura em que a inteligência artificial generativa tornou o phishing, o vishing e o smishing muito mais convincentes.
Ao mesmo tempo, multiplicam-se os casos de spoofing: situações em que um número de telefone legítimo é falsificado para fazer uma chamada parecer credível. Em Portugal, dezenas de pessoas já relataram receber chamadas de desconhecidos a afirmar que tinham sido contactadas por elas, apesar de nunca terem feito essas chamadas.
O efeito é fácil de perceber: os consumidores começam a desconfiar de tudo.
Uma chamada do “banco” pode não ser do banco. Um SMS de uma marca conhecida pode ser falso. Uma mensagem aparentemente enviada por uma empresa legítima pode ter sido criada por um burlão.
Para as empresas, isto cria um problema adicional: mesmo uma comunicação perfeitamente legítima pode ser ignorada porque o destinatário já não confia no canal.
Nos Estados Unidos, os prejuízos associados a burlas de impersonação de marcas ultrapassaram 3,5 mil milhões de dólares no último ano. Ao mesmo tempo, o volume de mensagens de smishing cresceu 157% num único ano, segundo dados citados pela indústria de segurança.
É neste contexto que começam a surgir novas regras para identificar claramente quem está por detrás de uma mensagem.
A identidade do remetente está a tornar-se obrigatória
O objetivo das novas medidas é relativamente simples: reduzir o anonimato, dificultar a falsificação de identidade e bloquear tráfego fraudulento antes de este chegar ao consumidor.
E essa mudança já está a acontecer em vários mercados europeus.
Em Portugal, o Governo aprovou em Conselho de Ministros, no final de Maio de 2026, uma proposta de autorização legislativa para alterar a Lei das Comunicações Eletrónicas.
Entre as medidas previstas está a obrigação de as operadoras — como MEO, NOS, Vodafone ou Digi — bloquearem ou anonimizarem mensagens fraudulentas e hiperligações enganosas.
A proposta prevê também a identificação obrigatória dos utilizadores de cartões pré-pagos, reduzindo o anonimato associado a este tipo de números.
A Anacom participou directamente na elaboração da proposta, depois de vários alertas relacionados com chamadas fraudulentas feitas em nome de bancos, organismos públicos e outras entidades.
Até agora, Portugal era o único Estado-membro da União Europeia sem legislação específica de combate ao spoofing.
A proposta ainda terá de passar pela Assembleia da República e o processo de implementação não será imediato. Ainda assim, a direcção é clara: a identificação dos remetentes vai assumir um papel cada vez mais importante.
Se queremos perceber o que poderá acontecer noutros países europeus, Espanha oferece provavelmente o exemplo mais relevante.
A CNMC, o regulador espanhol das comunicações, criou um Registo de Alias nacional, ao abrigo da Ordem Ministerial TDF/149/2025 e da Circular 1/2026.
Na prática, qualquer remetente alfanumérico — o nome que aparece no lugar de um número quando recebemos um SMS de uma empresa — utilizado em SMS, MMS ou RCS destinados a números espanhóis terá de estar previamente registado.
Para registar esse alias, a empresa tem de demonstrar que existe uma ligação legítima entre o remetente e a entidade que o utiliza. Essa relação pode ser comprovada através de elementos como:
- marca registada;
- denominação social;
- nome comercial;
- domínio próprio.
O remetente terá também de respeitar regras técnicas específicas de formato.
A CNMC prevê ainda disponibilizar um portal público de consulta, permitindo que qualquer pessoa confirme quem é o titular de determinado alias.
As obrigações de bloqueio estavam inicialmente previstas para 7 de Junho de 2026, mas foram adiadas para 15 de Setembro de 2026, para permitir uma adaptação mais gradual das empresas e dos fornecedores de mensagens.
O princípio, porém, mantém-se: um Sender ID que não esteja devidamente registado poderá ser bloqueado.
Uma tendência que poderá estender-se ao resto da Europa
A iniciativa espanhola não surgiu isoladamente.
A medida segue uma recomendação da CEPT — Conferência Europeia das Administrações de Correios e Telecomunicações, adoptada em Outubro de 2025, que aponta precisamente para a criação de registos nacionais de alias como uma das formas de combater a fraude em mensagens.
Isto não significa que todos os países europeus vão adoptar exactamente o mesmo modelo.
Mas mostra claramente a tendência: o Sender ID está a deixar de ser apenas um campo técnico para passar a funcionar como uma identidade verificada da empresa.
No RCS, a verificação já faz parte do processo
No RCS, esta lógica está ainda mais avançada.
A Google exige um processo de verificação da marca antes de um negócio poder enviar mensagens através do RCS Business Messaging.
Durante esse processo são verificados elementos como a identidade legal da organização, a documentação apresentada e a relação entre a entidade que gere o agente RCS e a marca representada.
As próprias operadoras móveis podem ainda efectuar verificações adicionais relacionadas com a marca, o caso de uso e a categoria de tráfego.
Só depois da aprovação é que uma empresa pode beneficiar de uma das principais vantagens do RCS: apresentar a sua identidade de forma clara na caixa de entrada do cliente, através do nome da marca, logótipo e outros elementos visuais de confiança.
Num contexto em que os consumidores estão cada vez mais desconfiados, essa diferença não é apenas estética.
É uma forma de tornar a mensagem reconhecível.
O WhatsApp Business segue uma lógica semelhante
No WhatsApp Business, a Meta aplica um princípio comparável através da verificação da empresa e das contas utilizadas para comunicar com clientes.
Documentação comercial, domínio próprio, identidade da empresa e correspondência entre o nome apresentado e a organização que está por detrás da conta fazem parte do ecossistema de verificação.
Ou seja, embora SMS, RCS e WhatsApp sejam canais diferentes, estão a convergir para o mesmo princípio:
quem envia uma mensagem empresarial tem de conseguir provar quem é.
O que muda para as empresas
Para quem envia milhares ou milhões de mensagens, estas novas exigências representam inevitavelmente mais trabalho administrativo.
Passará a ser necessário reunir documentação, validar marcas, comprovar domínios, registar remetentes e garantir que a informação utilizada em diferentes plataformas está alinhada.
Mas há também benefícios claros.
Maior protecção da marca
Se um remetente só pode ser utilizado por quem consegue provar uma ligação legítima à marca, torna-se mais difícil para terceiros enviar mensagens em nome dessa empresa.
Num mercado onde uma campanha fraudulenta pode danificar rapidamente a reputação de uma organização, esta camada adicional de protecção é cada vez mais importante.
Melhor entregabilidade
Os remetentes verificados tendem também a beneficiar de uma maior confiança por parte das plataformas e dos sistemas de filtragem.
Segundo fornecedores do sector, remetentes verificados têm menor probabilidade de serem bloqueados, ignorados ou filtrados.
Naturalmente, a verificação não substitui boas práticas de conteúdo, consentimento e gestão de bases de dados. Mas passa a ser mais um elemento relevante na capacidade de uma mensagem chegar ao destinatário.
Mais confiança por parte do consumidor
Talvez esta seja a consequência mais importante.
Se o consumidor conseguir reconhecer rapidamente quem enviou a mensagem — e souber que essa identidade foi validada — existe uma maior probabilidade de confiar no canal.
Num mundo onde praticamente qualquer identidade digital pode ser imitada, a verificação passa a ter valor.
E o que muda no mercado de SMS e RCS?
As consequências vão além das empresas individuais.
A adopção generalizada de mecanismos de identificação poderá ajudar a reduzir parte do tráfego fraudulento que hoje circula nas redes.
Também poderá diminuir a utilização das chamadas grey routes — rotas de mensagens que exploram diferenças técnicas ou comerciais entre operadores para encaminhar tráfego de forma pouco transparente.
A médio prazo, isto poderá tornar o mercado de mensagens empresariais mais regulado, mas também mais previsível.
Para as operadoras, significa maior controlo sobre o tráfego.
Para as empresas, maior responsabilização sobre os remetentes utilizados.
E para quem recebe as mensagens, maior capacidade de perceber quem está realmente a comunicar.
Como estamos a acompanhar esta mudança
Para muitas empresas, estas novas regras vão significar mais do que registar um novo Sender ID. Será necessário perceber que requisitos se aplicam em cada mercado, reunir documentação, validar marcas e domínios e garantir que tudo está preparado antes de uma nova obrigação começar a bloquear mensagens.
É precisamente essa complexidade que queremos retirar aos nossos clientes.
Na E-goi, estamos a acompanhar de perto a evolução destas regras junto dos mercados, operadores e parceiros com quem trabalhamos, para antecipar alterações que possam afectar os remetentes utilizados pelos nossos clientes.
À medida que novos requisitos forem sendo definidos, iremos ajudar a perceber o que muda, quando muda e o que é necessário fazer — desde a documentação e validação dos Sender IDs até às eventuais adaptações necessárias para continuar a enviar sem interrupções.
Para quem comunica em vários países, esta preparação torna-se ainda mais importante: as regras podem não surgir ao mesmo tempo nem assumir exactamente o mesmo formato em todos os mercados.
O nosso papel é fazer com que essa complexidade não tenha de ficar do lado de quem envia as campanhas.
Porque, quando uma nova regra entrar em vigor, o pior momento para descobrir que um remetente precisava de ser validado é quando as mensagens já estão a ser bloqueadas.
No fundo, trata-se de responder a uma pergunta simples
Os golpes com voz clonada fizeram-nos começar a perguntar, durante uma chamada:
“É mesmo esta pessoa quem diz ser?”
É exactamente essa pergunta que os reguladores e as plataformas estão agora a fazer aos remetentes de SMS, RCS e WhatsApp.
Espanha já criou um sistema formal para responder a essa questão. Portugal começou a reforçar a legislação contra o spoofing. O RCS e o WhatsApp já integram processos de verificação das empresas que utilizam os canais.
Tudo aponta para o mesmo futuro: a identidade do remetente deixará progressivamente de ser presumida e passará a ter de ser comprovada.
Pode significar mais documentação e mais processos para as empresas.
Mas num mercado onde a confiança se tornou um recurso escasso, essa verificação poderá ser precisamente aquilo que permite que uma mensagem continue a ser aberta, lida e levada a sério.