Durante muito tempo, o clique foi tratado como o sinal definitivo de intenção. Mesmo quando as aberturas começaram a perder confiabilidade, o clique manteve-se como referência segura para medir interesse, ativar automações e validar hipóteses.
Esse pressuposto deixou de ser válido, sobretudo em ambientes B2B ou em bases de dados com domínios corporativos. Hoje, uma parte relevante dos cliques registrados em campanhas de email não é gerada por pessoas, mas por sistemas automáticos de segurança. O problema não é apenas estatístico, é estrutural, porque esses cliques interferem diretamente na lógica de decisão.
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O papel real dos sistemas de segurança no email moderno
Os filtros de segurança corporativa não existem para observar comportamento, existem para prevenir riscos. Para cumprir esse objetivo, adotam uma postura ativa. Quando um email entra em uma organização, esses sistemas analisam o conteúdo e testam todos os pontos de saída possíveis.
Isso inclui clicar em links, seguir redirecionamentos, carregar páginas de destino e avaliar scripts. Esse processo acontece de forma automática e, frequentemente, imediatamente após o email ser entregue, antes mesmo que qualquer colaborador o veja.
Do ponto de vista da segurança, esse comportamento é racional. Do ponto de vista do marketing, cria um cenário em que o primeiro clique raramente é humano.

Como um clique falso é mais destrutivo do que uma abertura falsa
Quando um sistema de segurança clica em um link, o evento é registrado como interesse. A partir daí, o sistema de marketing reage. Segmentações são atualizadas, fluxos são ativados, estados mudam. Tudo isso acontece sem qualquer decisão humana.
Quando o usuário real interage mais tarde, essa interação perde peso analítico. O evento já ocorreu, a lógica já foi executada e o sistema já “aprendeu” algo que nunca aconteceu na realidade.
É por isso que os cliques automáticos são particularmente perigosos. Eles não apenas inflacionam métricas, corrompem processos.
O efeito cascata nas automações
Grande parte das automações modernas parte de um princípio simples: reagir a ações do usuário. Quando essa ação não é humana, toda a cadeia seguinte perde significado.
Fluxos de “obrigado pelo interesse” podem ser acionados sem interesse real. Sequências de nutrição avançam etapas sem que o contato tenha consumido qualquer conteúdo. Em casos mais graves, sistemas de unsubscribe podem ser acionados por bots, removendo contatos válidos da base de dados.
Esses problemas raramente são detectados de imediato, porque os relatórios continuam mostrando atividade. O erro só se torna visível quando os resultados não acompanham as métricas.
Como distinguir comportamento humano de comportamento automático
Apesar de sofisticados, os sistemas de segurança deixam sinais claros da sua passagem. O mais óbvio é o tempo. Cliques que ocorrem um ou dois segundos após o envio não correspondem a comportamento humano. Nenhuma pessoa lê um email, decide e clica nesse intervalo, a não ser que seja o Flash.
Outro sinal frequente é a incoerência. Um mesmo contato clicando em vários links diferentes, incluindo links promocionais, redes sociais e unsubscribe, no mesmo instante, não está demonstrando interesse, está executando um teste automatizado.
Há ainda a sincronização perfeita. Quando abertura e clique compartilham o mesmo timestamp, trata-se quase sempre de uma máquina processando o email como um pacote técnico.
O impacto nos testes e na aprendizagem do sistema
Quando cliques automáticos são tratados como sinal válido, os testes A/B deixam de testar o que se imagina que estão testando. Linhas de assunto, conteúdos ou CTAs podem parecer vencedores apenas porque foram analisados mais rapidamente por sistemas de segurança.
O sistema aprende padrões errados, reforça decisões erradas e otimiza campanhas para agradar máquinas.
Esse é um dos motivos pelos quais vejo todas as semanas equipes experientes sentindo, cada vez mais, uma desconexão entre métricas positivas e impacto real.
Conclusão
O clique deixou de ser um sinal automaticamente confiável. Continuar tratando-o como tal é construir decisões sobre uma base instável.
No próximo artigo, fechamos a série com uma abordagem prática para reorganizar métricas, redefinir KPIs e medir o que realmente importa em um ambiente imperfeito.
Principais aprendizados
- Cliques automáticos são comuns em contextos B2B e têm impacto direto em automações e decisões.
- O problema não é técnico, é analítico.
- Sem filtragem e interpretação, o sistema passa a otimizar para máquinas em vez de pessoas.